Balestra – No Brasil é assim: tudo vira samba, piada ou poesia

TODO MUNDO SABE NO ARENITO

Todo mundo sabe no arenito…
Pra ser prefeito se carece ter dinheiro,
Pra na campanha ficar tudo bem bonito,
Discurso sair perfeito, no puro estilo eleitoreiro.

Todo mundo sabe no arenito…
A posse depois é sempre um sucesso,
Seja a de José ou de Benedito;
Nela só se fala em trabalho e progresso.

Todo mundo sabe no arenito…
À festa vão amigos, inimigos e adversários,
Tem bebida cara, carne de boi assada e até cabrito,
E repórter-fotográfico recolhendo os comentários.

Todo mundo sabe no arenito…
É polido se conceder ao novo prefeito,
Pelo menos cem dias sem cobrança ou conflito;
Tempo pro neófito que chega dar seu ajeito.

Todo mundo sabe no arenito…
Prefeito bom e admirado é sempre o popular,
Anda a pé pela cidade, fica longe de granito,
Enfim, tem dom de estender a mão e bem se articular.

Todo mundo sabe no arenito…
Dezembro é tempo de calor forte na região,
De se fazer no asfalto até ovo frito;
Maltrata o pneu do rico, os pés do pobre e da criação.

Todo mundo sabe no arenito…
Depois do tal calor cai chuva de montão;
Nem adianta vela pra São Benedito,
Porque o padroeiro ali é São Sebastião.

Todo mundo sabe no arenito…
Com fogo e chuvarada ninguém pode,
Não adianta nada ter chilique ou faniquito,
Perder o passo na dança do pagode.

Todo mundo sabe no arenito…
A chuvarada faz buraco, erosão, leva até tubulação,
E bueiro vira fonte desiluminada no conflito,
Cuspindo pedra e aguaceiro a borbotão.

Todo mundo sabe no arenito…
Que os bens públicos não são eternos;
Reclamam sempre inspeção de rito,
Seja nos verões, seja nos invernos.

Todo mundo sabe no arenito…
Que nas águas ponte cair não é novidade,
Só que o povo fica muito aflito
Se o seu conserto vai ficando pra eternidade.

Todo mundo sabe no arenito…
Da ruína da ponte da Avenida Gabriel Esperidião
Lá se vão três meses e um tiquito
E o prefeito inda claudica, falando em cautela e reunião.

Todo mundo sabe no arenito…
Que o assunto da ponte não é nenhum bicho-papão,
Basta que o chefe dê sem receio seu veredito,
Ouvindo o clamor do povo e até o do notável cirurgião.

Todo mundo sabe no arenito…
Que o prefeito é humano e também erra,
Mas ninguém agüenta mais noventa dias circulando restrito,
Dando volta, seja por cima de piçarra, pedra ou terra.

Todo mundo sabe no arenito…
Que se o chefe deixar de tanto legalismo,
Metendo o peito, dando à tal ponte um definitivo jeito,
Será perdoada a hesitação, já com ares de individualismo.

Todo mundo sabe no arenito…
Faixa de protesto é gesto civilizado com fonte que o direito tutela,
Por advindo de um forte motivo estrito.
Restaure-se logo essa ponte, pondo-se fim a essa novela…

José Roberto Balestra, paranavaiense

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